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Ribeirão,26/02/2026

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Entenda o que já se sabe — e o que falta provar — sobre a polilaminina

Entenda o que é a polilaminina, o que já se sabe sobre a substância e por que especialistas pedem cautela antes de considerá-la tratamento


Entenda o que já se sabe — e o que falta provar — sobre a polilaminina Foto: Reprodução

A polilaminina ganhou grande repercussão nas redes sociais após vídeos de pacientes recuperando movimentos, debates sobre patente, ações judiciais para acesso à substância e manifestações de apoio à ciência nacional. Ao mesmo tempo, profissionais que pedem cautela diante da falta de evidências de eficácia e segurança também passaram a ser alvo de críticas.

Desenvolvida por uma equipe da UFRJ em parceria com o laboratório Cristália, a substância é apresentada como uma possível inovação para o tratamento da lesão medular aguda. Especialistas, no entanto, afirmam que ainda é necessário seguir todas as etapas do método científico antes de transformar a promessa em tratamento.

O que é a polilaminina

A polilaminina é uma versão reorganizada em laboratório da laminina, proteína presente no corpo humano. Essa proteína participa da organização dos tecidos e do desenvolvimento do sistema nervoso.

A proposta é que a substância seja aplicada diretamente na área lesionada da medula durante a cirurgia de descompressão. A expectativa é que funcione como uma estrutura de suporte para orientar o crescimento dos neurônios e facilitar a reconexão das vias nervosas.

Em quais casos a substância está sendo testada

Os protocolos divulgados envolvem lesões medulares torácicas agudas classificadas como completas (ASIA A), ocorridas há menos de 72 horas.

Nesses casos, não há função sensitiva nem motora abaixo do nível da lesão. Já nas lesões incompletas, classificadas como ASIA B, C ou D, a probabilidade de recuperação espontânea parcial é maior, o que dificultaria medir um possível efeito adicional da substância.

Por que especialistas pedem cautela

Sociedades médicas e especialistas em neurologia e metodologia científica afirmam que ainda não existe evidência clínica robusta capaz de demonstrar que a substância seja responsável pelas melhoras relatadas.

Um dos pontos levantados envolve o momento da aplicação. Nas primeiras 72 horas após o trauma, o quadro neurológico costuma ser instável e pode ocorrer recuperação parcial espontânea.

Outro fator importante é a ausência, até agora, de ensaios clínicos controlados capazes de estabelecer relação de causa e efeito.

Em janeiro de 2026, a Anvisa autorizou o início de um estudo de fase 1, voltado apenas para avaliação de segurança. Essa etapa não mede eficácia.

Risco de erro na classificação da lesão

A literatura científica aponta que o diagnóstico do grau de comprometimento pode ser impreciso nas primeiras horas ou dias após o trauma.

Durante o choque medular, fase transitória de ausência de reflexos e atividade motora, uma lesão parcial pode parecer completa.

Estudos indicam que até 40% dos pacientes inicialmente classificados como ASIA A podem ser reclassificados posteriormente para ASIA B, C ou D. Esse cenário reforça a necessidade de estudos controlados.

A polilaminina já é tratamento comprovado?

Até o momento, não existe ensaio clínico randomizado, controlado e revisado por pares demonstrando eficácia em humanos.

A autorização concedida pela Anvisa refere-se apenas à fase 1 da pesquisa, voltada para avaliar segurança e possíveis efeitos adversos. A eficácia só é testada formalmente nas fases 2 e 3, com mais participantes e comparação com o tratamento padrão.

Qual é o tratamento atual para lesão medular

O atendimento emergencial costuma ocorrer nas primeiras 72 horas e envolve:

  • Imobilização e estabilização da coluna
  • Descompressão medular cirúrgica
  • Reabilitação intensiva com fisioterapia e terapia ocupacional

O que mostram os estudos divulgados até agora

Os dados disponíveis incluem experimentos laboratoriais, um estudo em animais e um estudo com oito pacientes.

Segundo a pesquisadora Tatiana, seis pacientes apresentaram alguma melhora motora e dois morreram por outras causas não relacionadas à substância.

Apesar dos resultados considerados promissores, o estudo não contou com grupo controle e não foi publicado em revista científica.

O neurocirurgião Paulo Louzada, que participou do estudo e não integra mais a equipe, afirmou em redes sociais que há vieses metodológicos. O próprio estudo ressalta que os resultados são preliminares e não devem orientar a prática clínica.

Por que o grupo controle é essencial

Grupo controle é o conjunto de participantes que não recebe a intervenção experimental. Ele serve como base de comparação para verificar se os efeitos observados resultam do tratamento ou de outros fatores.

Na lesão medular aguda, pode ocorrer recuperação parcial mesmo sem o uso da polilaminina. Estudos indicam melhora espontânea entre 10% e 30% dos casos.

Sem comparação com grupo controle, não é possível separar o efeito da substância da evolução natural da lesão ou do tratamento convencional.

Debate sobre estudos sem grupo controle

No programa Roda Viva, a pesquisadora Tatiana Sampaio cogitou a possibilidade de futuras fases ocorrerem sem grupo controle caso os resultados sejam muito consistentes.

Essa prática é considerada incomum pela comunidade científica.

Segundo o cardiologista Luis Correia, tudo depende do tamanho do efeito observado. Se o resultado for extremamente evidente, a evidência pode ser considerada forte mesmo sem grupo controle.

Hoje já é possível medir o efeito da substância?

Ainda não. Pacientes submetidos à aplicação da polilaminina também recebem cirurgia precoce, cuidados intensos e fisioterapia especializada.

O paciente Bruno Freitas, considerado o caso de maior sucesso, passou da classificação A para D. Mesmo assim, especialistas afirmam que apenas um estudo randomizado e controlado permitirá medir se há benefício adicional da substância.




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