Le Monde critica Bolsonaro em editorial histórico; veja tradução para o português
Jornal francês Le Monde publicou um editorial sobre a condenação de Jair Bolsonaro. Veja a tradução na íntegra do texto que classificou a decisão do STF como um “veredito exemplar para a democracia”
Foto: Reprodução A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, no último dia 11 de setembro, repercutiu internacionalmente. Um dos principais veículos de imprensa do mundo, o jornal francês Le Monde, publicou um editorial intitulado “Brésil: un verdict exemplaire pour la démocratie” (“Brasil: um veredito exemplar para a democracia”).
No texto, o jornal classifica a decisão como histórica e simbólica para o fortalecimento da democracia brasileira.
O editorial destaca que a Justiça não hesitou em condenar Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, lembrando que o respeito ao resultado das urnas é o princípio fundamental de qualquer democracia. O texto também critica a reação dos Estados Unidos, em especial do secretário de Estado Marco Rubio, e compara a postura brasileira ao "fracasso norte-americano em punir Donald Trump".
Veja abaixo a tradução na íntegra do editorial publicado pelo Le Monde:
Brasil: um veredito exemplar para a democracia
A mão da justiça brasileira não tremeu. Ao fim de um processo rigoroso, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi considerado culpado, em 11 de setembro, de tentativa de golpe de Estado, após a derrota nas eleições presidenciais para Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro de 2022. A gravidade dos fatos explica a severidade da pena aplicada: vinte e sete anos e três meses de prisão, proferida pelo Supremo Tribunal Federal, a mais alta instância judiciária do país. Essa sentença pode ser adaptada, levando em conta a saúde fragilizada do condenado, de 70 anos.
Essa condenação é exemplar, independentemente dos esforços dos apoiadores de Jair Bolsonaro para aprovar uma lei de anistia. Ela recorda a todos o que deveria ser óbvio: o primeiro princípio da democracia é que o exercício do poder depende do veredito das urnas, e certamente não da depredação das instituições. Para um país submetido ao arbítrio e à brutalidade de uma ditadura militar até 1985, esse julgamento é uma prova de maturidade, assim como a presença, entre os outros condenados, de seis oficiais de alta patente, incluindo três generais.
É ainda mais lamentável que esse julgamento tenha sido alvo, assim que anunciado, de críticas incendiárias vindas dos Estados Unidos, pela voz do secretário de Estado, Marco Rubio. Este último, filho de exilados cubanos, deveria ser capaz de distinguir um golpista de um democrata. Marco Rubio não se limitou à denúncia escandalosa de uma “caça às bruxas” e de “perseguições políticas”, como faz sistematicamente a extrema direita diante de decisões judiciais, inclusive na França.
Ele também agitou a ameaça de novas represálias, enquanto o Brasil já enfrenta sobretaxas alfandegárias impostas por Donald Trump, em total desrespeito às regras, para pressionar os juízes de Brasília. Com o resultado que agora conhecemos. Washington, se quisesse empurrar a qualquer custo um peso pesado do continente americano para os braços de Pequim, não agiria de forma diferente.
O desafio da reconciliação
A virulência dessa ingerência americana impressiona ainda mais porque o Brasil conseguiu o que a potência que durante muito tempo se apresentou como bússola do mundo livre fracassou miseravelmente em alcançar. Líder de uma contestação veemente aos resultados da eleição presidencial de 2020, sem que jamais tenha sido apresentada qualquer prova de fraude, Donald Trump contou com a servilidade do Partido Republicano e a complacência dos juízes por ele indicados à Suprema Corte para escapar de qualquer forma de processo. Ele acrescentou o ultraje à injustiça ao conceder perdão aos responsáveis por um ataque sem precedentes contra a democracia americana, em Washington, no dia 6 de janeiro de 2021.
Essa vitória democrática brasileira, no entanto, não está completa. “A história nos ensina que a impunidade, a inação e a covardia não conduzem à pacificação”, afirmou com razão o relator do processo, Alexandre de Moraes. A polarização política exacerbada, da qual os Estados Unidos foram o laboratório e que contaminou o Brasil, faz com que o julgamento de 11 de setembro ainda não tenha permitido virar a página sombria da história do país. Pelo contrário, reacendeu suas fraturas, apesar do deplorável balanço, sobretudo ambiental e sanitário, do mandato de Jair Bolsonaro. O desafio da reconciliação permanece.



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